François Marie Gabriel Delanne nasceu em Paris, no dia 23/3/1857, ano de lançamento de "O Livro dos Espíritos". Seu pai, Alexandre Delanne, muito amigo de Allan Kardec, era espírita e sua mãe, Marie Alexandrine Didelot, era médium e contribuiu na codificação do Espiritismo. Gabriel foi engenheiro e dedicou-se ao Espiritismo Científico, tendo buscado sua consolidação como uma Ciência estabelecida e complementar às demais. Fundou a União Espírita Francesa, a revista "O Espiritismo", além de ter publicado vários livros. Desencarnou no dia 15/2/1926, aos 69 anos.
Semana 334
Das parábolas de Jesus às do Espiritismo
Sonia Hoffmann
Parábola é uma das estratégias didático-pedagógicas aplicadas por Jesus para a difusão dos ensinamentos, se encontrando nos escritos evangélicos. Nela, ele utilizava-se de elementos do cotidiano, tomando imagens, situações e personagens comuns do conhecimento e vivência do povo daquela época, envolvendo figuras de linguagem ou alegorias que estimulavam a reflexão e a interpretação de revelações da verdade espiritual e da realidade do Reino de Deus, comunicando concepções universais e profundas acerca da vida, dos valores morais e da conexão/relacionamento com Deus.
Em suas narrativas, Jesus refletia a vibração de seu sentimento nos ensinos, os quais inspiravam a cada ouvinte ativo a promoção em si de mudanças morais, intelectuais e comportamentais que se configuravam na libertação de atavismos e na ação fraterna. Por serem curtas, estas narrativas eram de fácil memorização e transmissão oral, tornando-se atemporais. Como Emmanuel (2013) expressa: "As parábolas do Evangelho são como as sementes divinas que desabrochariam, mais tarde, em árvores de misericórdia e de sabedoria para a Humanidade" (q.290).
Jesus, como contador e guardião de histórias, trouxe para muitos destes relatos os fundamentos hoje apresentados como princípios filosóficos da inclusão no acolhimento das diferenças, da importância do rompimento de barreiras visíveis e invisíveis, da dissolução de preconceitos, da necessidade de promoção da justiça na interação humana.
Quando aponta o samaritano sendo o próximo de quem estava ferido e caído na estrada, quando fala da partida e do retorno do filho para a casa do pai, quando refere a semeadura nos mais diversos terrenos, ele traz para o repensar e para o ressignificar evolutivo da transformação moral do ser, ensinamentos essenciais para um olhar solidário e includente da diversidade, para retirar do espaço da exclusão e transpor para o cenário da validação e da possibilidade criações de Deus, dignas de reconhecimento e visibilidade que não se definem por sua raça, idade, sexo, classe social, e sim por serem Espíritos imortais, tão filhos de Deus quanto qualquer outro. E este ensinamento é legítimo desde sempre e para sempre.
Porém, as parábolas migraram para novos tempos e encontraram no Espiritismo estilo e aprofundamentos alinhados às demandas de um período no qual as mensagens precisavam ter maior amplitude de abrangência e seu teor mais facilmente compreensível.
Na questão 627, de O Livro dos Espíritos, Kardec (2013) questiona sobre a utilidade dos ensinamentos trazidos pelos Espíritos, se Jesus já ensinou as verdadeiras leis de Deus. A resposta é clara e precisa:
"Jesus empregava amiúde, na sua linguagem, alegorias e parábolas, porque falava de conformidade com os tempos e os lugares. Faz-se mister agora que a verdade se torne inteligível para todo mundo. Muito necessário é que aquelas leis sejam explicadas e desenvolvidas, tão poucos são os que as compreendem e ainda menos os que as praticam. A nossa missão consiste em abrir os olhos e os ouvidos a todos, confundindo os orgulhosos e desmascarando os hipócritas: os que vestem a capa da virtude e da religião, a fim de ocultarem suas torpezas. O ensino dos Espíritos tem que ser claro e sem equívocos, para que ninguém possa pretextar ignorância e para que todos o possam julgar e apreciar com a razão. Estamos incumbidos de preparar o reino do bem que Jesus anunciou. Daí a necessidade de que a ninguém seja possível interpretar a lei de Deus ao sabor de suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade".
Aqui, novamente, temos princípios includentes sendo mantidos, pois a mensagem deve chegar a todos com clareza. Com Jesus, pelo momento evolutivo, muitas das suas orientações não foram explicitamente apresentadas a todos ou assimiladas e interpretadas por todos, pois ouvidos de ouvir e olhos de ver não eram unanimidade pelos mais diversos motivos... embora, hoje ainda, aconteça o mesmo porque o egoísmo e o orgulho até agora preponderam em nossa humanidade terrestre.
Por isso, a urgência de medidas apropriadas vindas pelo Consolador prometido, anunciado por Jesus e, talvez, implícito nas três medidas da parábola do fermento: Moisés, Jesus, Espiritismo. Além do mais: "importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado. Jamais permitiu Deus que o homem recebesse comunicações tão completas e instrutivas como as que hoje lhe são dadas" (Kardec, 2013, q. 628).
A Revista Espírita manifesta, em suas várias edições, parábolas que, como as de Jesus, igualmente demandam para seu melhor entendimento e aplicabilidade a conjugação de, como menciona Schutel (1979), estudo, meditação, sentimento e vivência.
Como exemplificação, encontramos a parábola “os três cegos”, trazida por Lucas na edição de dezembro de 1859, na qual um homem rico e generoso encontra três pessoas cegas, famintas e cansadas; a cada um oferece uma moeda de ouro. Dois deles desacreditaram ou menosprezaram a oferta, o terceiro, porém, aceitou a moeda, abençoou o benfeitor e partiu para a cidade vizinha com o propósito de obter o que necessitava. Lucas, então, explica: "Os homens são os cegos; o Espiritismo é o ouro. Julgai a árvore pelos seus frutos" (p. 556).
São Vicente de Paulo, em publicação de abril de 1860, narra outra parábola: terrível tempestade surpreendeu grande número de passageiros em um velho navio, que também transportava mercadorias acumuladas pela avareza e ambição de seus donos. Havia recusa em lançar a carga ao mar; era preciso abandonar o navio.
Três embarcações foram disponibilizadas: "na primeira, a maior, precipitaram-se, aturdidos, os mais impacientes e os mais inexperientes, que se apressaram a remar na direção da luz que avistaram ao longe, na costa. Caíram nas mãos de um bando de corsários, que os despojaram dos objetos preciosos que haviam recolhido às pressas, maltratando-os sem piedade. Os segundos, mais espertos, souberam distinguir um farol libertador em meio às luzes enganadoras que alumiavam o horizonte e, confiantes, abandonaram o barco ao capricho das ondas; foram arrebentar nos arrecifes, ao pé do próprio farol, do qual não haviam tirado os olhos. Foram tanto mais sensíveis à sua ruína e à perda de seus bens quanto haviam entrevisto a salvação. Os terceiros, pouco numerosos, mas sábios e prudentes, guiavam com cuidado o frágil barco em meio aos obstáculos; salvaram corpos e bens, sem outro mal além da fadiga da viagem" (p.187).
A instrução nessa narrativa é a de que não devemos nos contentar, conforme São Vicente de Paulo (1860), em nos proteger dos Espíritos maus, mas também "evitar o erro dos viajantes negligentes, que perderam os bens e naufragaram no porto. Sabei guiar vosso barco em meio aos escolhos das paixões e atracareis com felicidade no porto da vida eterna, ricos das virtudes que tiverdes adquirido em vossas viagens" (p.187).
Tanto Jesus quanto o Espiritismo nos possibilitam oportunidades valiosas de reflexão sobre o nosso viver e estar no mundo, experimentando interações que a todos propiciam o despertar e o desenvolvimento de avanços morais e intelectuais importantes para nosso progresso na trajetória de uma enriquecedora viagem para o nosso interior, desvelando cada vez mais a essência divina inscrita na consciência, e igualmente para o encontro com os próximos que trazem, em si, sementes a procura do terreno fértil em cada ser para que os frutos da amorosidade, fraternidade, empatia e inclusão das diferenças possam naturalmente gerar Humanidades regeneradas a caminho da felicidade em sua plenitude.
Referências
EMMANUEL (Espírito). O Consolador. Psicografia de Francisco C. Xavier. Brasília, DF: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília, DF: FEB, 2013. Q.627-628.
LUCAS. Os três cegos. Revista Espírita, ano II, n. 12, p. 504-505, dez. 1859.
SÃO VICENTE DE PAULO. Parábola. Revista Espírita, ano III, n. 4, p. 187, abr. 1860.
SCHUTEL, Cairbar. Parábolas e ensinos de Jesus. 11. ed. Matão: O Clarim Ed., 1979.